terça-feira, 11 de outubro de 2011

Augusto Rodrigues da Silva Junior

Filosofia cínica e estética: ferramentas articuladoras da responsividade literária e princípios crítico-polifônicos em Mikhail Bakhtin
     Autor: Augusto Rodrigues da Silva Junior
     (Prof. Adjunto de Literatura Brasileira – TEL/UnB)




Nenhum enunciado pode ser o primeiro ou o último.
(Mikhail Bakhtin)

Mikhail Bakhtin era um contemplador. Está entre os maiores pensadores do discurso no Século XX, foi o tipo do pesquisador incansável, que sempre se debruçou sobre a relação entre o ser humano e a criação artística e, principalmente, um grande leitor de romances. Tudo isso, articulado a partir do seu método de crítica polifônica, provocadora do diálogo entre os elementos estético e ético em uma mesma dinâmica interpretativa. Capaz de articular o literário e o filosófico no mesmo horizonte de observação, ele sempre teve uma preocupação com o par comunicativo eu-outro.
Conforme apreendeu de Dostoiévski, organizou um sistema crítico que reconhecia [...] a consciência pensante do homem e o campo dialógico do ser dessa consciência, em toda sua profundidade e especificidade [...] (BAKHTIN, 2008, p. 340) como o principio polifônico de compreensão do mundo. Sua maior lição: embora todo gênero tenha seu campo de predominância e amplie círculos já existentes e insubstituíveis, a crítica deve ser responsável a ponto de valorizar o locus de cada gênero e propor o inacabamento – mesmo diante de discursos monológicos.
De certo modo, respondendo a Sócrates, que pregava a expressão conhece-te a ti mesmo, ele a transforma e a atualiza na modernidade: conhece o outro e assim conhecerás a ti mesmo.
Esta polifonia da/na crítica é a capacidade de responder aos discursos e gêneros e, ao mesmo tempo, responder-se em diversos momentos nas re-elaborações internas no conjunto de um percurso diegético durante toda a vida: “Um traço distintivo da carreira de Bakhtin como pensador é que ele jamais cessou de perseguir diferentes respostas para o mesmo conjunto de questões” (CLARK; HOLQUIST, 2004, p. 89). O eterno retorno compõe esta visada. De uma perspectiva nietzscheana é possível afirmar que há rastos carnavalizados e ecos responsivos que habitam sua maiêutica. Esta postura sempre estabeleceu como critério de análise as reverberações e a humanização possibilitada pelo ato de fala:
Eu vivo em um mundo de palavras do outro. E toda a minha vida é uma orientação nesse mundo; é a reação às palavras do outro (uma reação infinitamente diversificada), a começar pela assimilação delas (no processo de domínio inicial do discurso) e terminando na assimilação de riquezas da cultura humana (expressas em palavras ou em outros materiais semióticos) (BAKHTIN, 2003, p. 379).

Orem bem, se todo ato é responsivo; logo, a superação do método socrático de pensamento facultou-lhe o entendimento dos movimentos internos do seu percurso e de suas posturas analíticas: 1) diante de autores expressivos: Luciano, Rabelais, Cervantes, Goethe, Dostoiévski, dentre outros; 2) diante de temas de sua época: formalismo, estruturalismo, freudismo, totalitarismo etc.; toda sua vida foi realmente uma orientação para a palavra do outro. Seu interesse pelo romance é a maior prova disso, pois este gênero é aquele que mais se realiza com a palavra da alteridade.
Com efeito, este sistema socrático, e não apenas método, propõe a respondibilidade como organizadora do pensamento. O pensamento, por sua vez, sempre é responsivo: “A palavra do outro coloca diante do indivíduo a tarefa especial de compreendê-la (essa tarefa não existe em relação à minha própria palavra ou existe em sentido outro.)” (BAKHTIN, 2003, p. 379). A partir do encadeamento, toda pergunta pressupõe a resposta-outra. Por sua vez, a própria pergunta abriga alguma resposta/discussão anterior. Ambas contém sua força responsiva no conjunto de ideias e de imagens. Mas o elenkhos de Bakhtin, ao pressupor a importância do outro, faz com que a verdade não esteja exatamente naquele que pergunta, mas naquele que dialoga em situação polifônica. Dialogar é compreender. Neste sentido, amplia-se a polifonia e percebe-se a comunhão com uma visão carnavalizada de mundo, capaz de “[...] desfamiliarizar com o estado das coisas, para historicizar aquilo que era tido como imutável e eterno e relativizar clamores de verdade por meio da ‘paródia alegre da razão oficial’” (GARDINER, 2010, p. 232).
Se nos Diálogos Socráticos [de Platão] está presente o eu personificado, condutor e articulador de uma verdade [possível monologismo dialogal?], no pensamento bakhtiniano isto consuma-se em um processo de aterrissagem, cujo cerne é a valorização de cada ponto de vista e de cada autonomia discursiva, ideológica, literária – todas elas em interação heteroglóssica. Desta discussão advém, justamente, a convergência entre filosofia e estética, cujas bases são a carnavalização e a polifonia. Em artigo intitulado “Mikhail Bakhtin e a cultura grega antiga”, J. Nuto, na mesma linha de Gardiner, articulam estes pressupostos da seguinte maneira:
[...] No período ático, o sério-cômico manifesta-se no drama satírico e em um gênero completamente não-poético (no sentido clássico): o diálogo socrático – supostamente mais carnavalesco no discurso oral de Sócrates que na recriação literária de Platão.
Tanto no drama satírico como no diálogo socrático, Bakhtin encontra alguns elementos que contribuem para uma visão romanesca do mundo [...] (NUTO, 2009, p. 83).

Partindo destas vozes sobre a carnavalização, em Bakhtin, amplia-se o conceito de crítica polifônica. Ainda, em sentido histórico, a filosofia cínica romana permite entender como o pensador russo, ao fazer uma revisão de poética histórica das linhas do romance, também organiza sua postura crítica. Conjugar a carnavalização e a polifonia em uma mesma trama responsiva, permite ainda apreender melhor seu interesse etno-filosófico pelo romance. Afinal, neste gênero, a coexistência de questões simples e profundas no mesmo plano, a nova ideia que surge no discurso vivo coletado no instante mesmo de seu acontecimento, a voz popular e a consonância/dissonância estética enformam uma sensibilidade crítica:
Bakhtin tem a sensibilidade aguçadíssima para captar em cada palavra a existência de uma segunda voz, o que o leva, em um plano mais amplo e mais profundo, a perceber em cada obra de arte literária elementos de estilização, de ironia, de paródia, elementos esses que ele sintetiza no discurso do outro (BEZERRA, 2002, p. XI).

Essa percepção do outro e de si mesmo como o outro de outro foi fortemente problematizada pela corrente filosófica cínica desde sua origem. Em linhas gerais, o cinismo grego foi aprofundado e transformado pelos romanos. Segundo alguns estudos (MERQUIOR, 1972; 1982; BEZERRA, 1989; GOULET-CAZÉ, 2007;) essa corrente filosófica foi uma ramificação original e influente da tradição dos diálogos orais, voltados para a educação, procura da verdade e antagonismo aos sofistas. Tem-se a seguinte genealogia para fins de organização histórica: Sócrates, Antístenes, Diógenes, Crates, Menipo, Luciano, dentre outros. (Para alguns, Odisseu seria a proto-figura cínica por excelência).
As controvérsias, não discutidas aqui por absoluta limitação espacial, relacionam-se com o fato de postular-se ao estoicismo uma filiação socrática por meio do cinismo. Para alguns teóricos, apontados acima, esse caminho é incerto para definir o intercurso romano desta corrente e sua possível força romanesca de base. O mais viável, pela conjunção de temas, material deixado e afinidades satíricas, seria um estudo à parte, no âmago do pensamento bakhtiniano, da presença do estoicismo em sua visão cristã e as reverberações da perspectiva cínica em sua diegese. Trata-se de discutir a inserção do conceito de refleks – traduzido como “presença”, em Estética da criação verbal –, para discutir a “existência atualizada, à mão, à vista, disponível no aqui e agora” (BEZERRA, 2003, p. XI).
Lançado no tempo, este aqui e agora é sua maior chave de interpretação do romance e principal ferramenta articuladora de uma responsividade do/no discurso. E este aqui e agora, enquanto princípio de crítica polifônica, permite a polêmica (vide primeiro capítulo de Problemas da poética de Dostoiévski), o inacabamento em sua atividade responsiva interna (vide “Adendos” de Problemas da poética de Dostoiévski), a carnavalização, foco da análise social-antropológica (vide Cultura popular na Idade Média e no Renascimento) e a responsividade – marca distintiva da sua atividade diegética durante toda sua vida:
Chamo sentidos às respostas a perguntas. Aquilo que não responde a nenhuma pergunta não tem sentido para nós. [...] A índole responsiva do sentido. O sentido sempre responde a certas perguntas. Aquilo que a nada responde se afigura sem sentido para nós, afastado do diálogo. [...] (BAKHTIN, ECV, 2003, p. 381).

Retirando a força decadente-trágica (vide A origem da Tragédia, de Nietzsche) e memorialística-biográfica do estilo platônico-socrático, o pensador russo aponta para a vertente literária do cinismo, esta máscara sorridente e destronante que, herdeira da comédia e da sátira, transforma-se por sua capacidade responsiva e de criação: “A menipéia se caracteriza por uma excepcional liberdade de invenção do enredo e filosófica” (BAKHTIN, 2002b, p. 115). A franqueza, a provocação e o despudor, se tinham o objetivo de chocar seus interlocutores e tirá-los de uma condição contemplativa e amena, era, também, um convite ao debate, a um posicionamento na arena discursiva do cotidiano. Esses traços convergem para a categoria carnavalesca de livre familiarização do homem com o mundo e que:
contribuiu para a destruição das distâncias épica e trágica e para a transposição de todo o representável para a zona do contato familiar, refletiu-se substancialmente na organização dos enredos e das situações de enredo, determinou a familiaridade específica da posição do autor em relação aos heróis (familiaridade impossível nos gêneros elevados), introduziu a lógica das mésalliances e das descidas profanadoras, exerceu poderosa influência transformadora sobre o próprio estilo verbal da literatura (BAKHTIN, 2002b, p. 124).

Esses elementos predominantes nos diálogos, em gestação na articulação biográfica-literária de Platão e os movimentos de autonomia discursiva em Luciano, de certa maneira estão amalgamadas nas sua análises literárias e discursivas. Esta ótica, por sua vez, profundamente marcada pelas reverberações filosóficas e sociais da sátira menipéia foram levadas ao extremo com a ascensão do romance na modernidade e fizeram dele um gênero consolidado nos últimos séculos. Bakhtin seria, neste caso, a possibilidade crítica desta tradição.
Em “Apontamentos de 1970-1971” é possível enxergar esta revisão do próprio pensamento e do próprio método crítico no seu conjunto de imagens autoconsciente que reverberam em sua obra:
A unidade de uma ideia em formação (em desenvolvimento). Daí certo inacabamento interior de muitos dos meus pensamentos. Todavia eu não pretendo transformar defeito em virtude: nos trabalhos há muito inacabamento externo, inacabamento não do próprio pensamento mas de suas expressão e exposição. Às vezes, é difícil separar um inacabamento de outro. [...] Minha paixão pelas variações e pela diversidade de termos aplicados a um fenômeno. Pluralidade de escorços. Aproximação com o distante sem indicação dos elos intermediários (BAKHTIN, 2003, p. 392).

Tudo isso permitiu a Bakhtin analisar zonas familiares, posicionamentos de autor, o autor e sua relação com os heróis, as marcas de aterrissagem, as transformações dos estilos verbais, a inserção das formas, dos ritos e dos espetáculos, a estilização de formas e gêneros escritos e verbais etc. Em seus exercícios de crítica polifônica, conseguiu analisar as aproximações entre o dialógico e o monológico, o sério e o riso, o ético e o estético, o realismo e a fantasia no universo ficcional. Por extensão, a autonomia do autor, a liberdade do personagem, a carnavalização como versão do mundo, a polifonia como ampliação estética do discurso colhido no cotidiano etc. Neste conjunto de visões, destaca-se a capacidade de repensar o próprio fazer específico: tem-se o nascimento da crítica polifônica, uma maiêutica autoconsciente de sua ancestralidade e sempre ávida pelas gerações e ideias vindouras.
O movimento interior da crítica polifônica é justamente este inacabamento. Essa força volitiva-responsiva no centro nervoso do exercício de análise literária-discursiva que conjuga pluralidade e variantes, a diversidade e elos responsivos – nem sempre trazendo a indicação explícita deles. O sistema polifônico de análise entende o sentido do discurso (do belo) como uma intensificação do ser e da verdade.
Bakhtin foi um contemplador: a voz é os seres em máximo de ser.
Se o romance foi o gênero capaz de estabelecer o inacabamento, gerar respostas cotidianas e autônomas frente ao poder axiológico e ao épico elevado, construir uma imagem do homem comum na história e, principalmente, sua natureza composicional que transcente a palavra, como crítico literário e grande leitor de romances, Bakhtin supera o princípio do maestro socrático na execução da análise literária e propõe uma visada analítica responsiva. Seu papel, neste sentido, dilui-se na própria festa das vozes e, de regente, torna-se, ele também, instrumento dialógico. Assim, sua atividade heterodiscursiva conduz a uma contemplação e audição do outro enquanto celebra a música discursiva das palavras. Na sua força polifônica, ele funde-se com a própria orquestra, com as vozes, com o belo estético e com a força ética de deixar que o outro fale: assim, a cortina do espetáculo do mundo, chamado vida, nunca é fechada e canções amigas são entoadas e ouvidas ininterruptamente...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
______. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Annablume/Hucitec, 2002b.
______. Adendo 1; Adendo 2. In: Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. p. 311-338.
______. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BEZERRA, P. A. A gênese do romance na teoria de Mikhail Bakhtin. 141 f. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Letras. Rio de Janeiro, 1989.
______. Prefácio à segunda edição brasileira de Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
CLARK, K. & HOLQUIST, M. Mikhail Bakhtin. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva,
2004.
GARDINER, Michael. O carnaval de Bakhtin: a utopia como crítica. In: RIBEIRO, Ana Paula G.; SACRAMENTO, Igor (Orgs.). Mikhail Bakhtin: linguagem, cultura e mídia. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.
GOULET-CAZÉ, M.-O. Religião e os primeiros cínicos. In: GOULET-CAZÉ, M.-O.; BRANHAM, R. B. (Orgs.). Os cínicos: o movimento cínico na Antigüidade e o seu legado. Trad. Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
NUTO, J. V. C. Mikhail Bakhtin e a cultura grega antiga. Revista Archai, v. 3, p. 81-86, 2009.

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