segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Wilza Karla Leão de Mecedo

Relação Eu – Outro: vivências e responsividade
Wilza Karla Leão de Mecedo
wilzaleao@hotmail.com
Mestra em Letras: Mestrado Linguagens e Representações – Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Santa Cruz, UESC – Ilhéus/BA.

No processo dialógico e polifônico ocorrem deslocamentos que interferem na constituição do locutor e do interlocutor. Essa constituição dada pelos deslocamentos e, simultaneamente, pela relação, não ocorre na “tranquilidade”, mas na “turbulência”, numa arena de lutas. A interação contamina, identifica, provoca posicionamentos, assim, o eu e o outro exercem a funcionalidade de construtores e não de réplicas.
Isso ocorre porque, segundo Bakhtin (1997b, p. 113), a palavra é ideológica por natureza e comporta nossas avaliações, de maneira que a interação torna-se um evento dinâmico onde o que está em jogo são os confrontos sociais. O diálogo, não no sentido estrito do termo, que significa interação face a face, é uma ação ininterrupta que resulta desse confronto, constituindo a natureza da linguagem.
Para o autor (1997b, p. 117), “a personalidade individual é tão socialmente estruturada como a atividade mental do tipo coletivista”. Essa ideia reflete sobre a constituição do sujeito a partir do que é exterior, bem como aponta para a defesa de que o mundo interior e a reflexão de cada indivíduo têm auditório social bem estabelecido; assim, é pela interação entre interlocutores que se concretizam as enunciações.
Entende-se, portanto, que a unidade real da língua realizada na fala não se constitui pela enunciação monológica individual e isolada. A recepção torna-se fator fundamental na consolidação do diálogo entre indivíduos. O interlocutor, ao ser interpelado pela enunciação de outrem, no processo de compreensão e interpretação de enunciados, oferece suas contrapalavras. Por isso, essa relação não ocorre na tranquilidade, é constituída numa arena, no deslocamento concedido pela dialogia.
            Ao escolher a categoria Outro para pensar a contraposição do Eu, Bakhtin escolhe não um tu, mas uma ampliação da possibilidade de relações humanizadoras. O autor diz que,    
toda a essência da agressão apreciativa da enunciação de outrem, tudo o que pode ser ideologicamente significativo tem sua expressão no discurso interior. Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavra, mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores. Toda a sua atividade mental, o que se pode chamar o “fundo perceptivo”, é midiatizado para ele pelo discurso interior e é por aí que se opera a junção com o discurso apreendido do exterior. A palavra vai à palavra. É no quadro do discurso interior que se efetua a apreensão da enunciação de outrem, sua compreensão e sua apreciação, isto é, a orientação ativa do falante (BAKHTIN, 1997b, p. 147).

            Bakhtin, com essa ampliação da possibilidade de relações entre o Eu e o Outro, entre o interior e o exterior, traz a ideia de que a língua não é reflexo das compulsões subjetivas, mas das relações sociais dos falantes. Portanto, ela não existe por si mesma, todavia, em “conjunção com a estrutura individual de uma enunciação concreta” (BAKHTIN, 1997b, p.154). Ou seja, pela enunciação a língua contacta com a comunicação, tornando-se realidade.
Dito de outra forma, o que determina as mudanças na transmissão do discurso de outrem são as condições mutáveis da comunicação socioverbal. Nesse sentido, o sujeito vai se constituindo numa relação, numa atividade de interação entre dois ou mais; uma relação que não é muda, privada da palavra, mas que impulsiona um deslocamento, não deixando os integrantes da mesma forma como estavam anteriormente.
            Miotello (2008, p. 393), à sombra e luz de Bakhtin, discute a questão da constituição do sujeito pelo viés do outro. O autor retrata que, para Bakhtin, a Identidade deve ser construída pela Alteridade, assinalando a falência do projeto moderno de Identidade (Eu penso) e a urgência de um novo projeto que emane pelo outro lado (Eu sou pensado). Esse pensar arrancaria o ser do seu nada, constituindo-o como sujeito numa relação com ele e com outros. Nesse processo são estabelecidas relações dialógicas com o Outro, que também pode não ser uma pessoa, pode ser as coisas do mundo ou tudo que não é Eu; nisso, esse Outro é humanizado por já ser constituído pelas materializações sociohistóricas, pelo ponto de vista dos outros.
De acordo com Azevedo, a constatação do “outro” como constituinte do “eu” faz implodir o “casulo”, faz deslocar a referência do eu para o outro, perceber vozes que bradam outras vozes, num inacabamento vivo de sentidos. Assim, afirma que
abre-se à nossa frente duas constatações: Uma, sob a ótica do “eu” e outra sob a ótica de “outro”. Ao “eu” seria pertinente pensar que, se este “outro” o constitui, ainda que seja na negação, cabe-lhe respeito, tolerância, consideração; afinal, este “eu” não seria nada sem o “outro”, como a luz não seria nada sem a escuridão, ou o som sem o silêncio, usando aqui de um já-dito de Milton Nascimento. A segunda constatação, agora sob a ótica do “outro”, é que, se esse “outro” constitui um “eu”, ele é responsável por esse sujeito, mesmo porque este mesmo “eu” constituído é o seu “outro” que também o constitui (AZEVEDO, 2007, p. 154).

Essas constatações contribuem para o desenvolvimento do que Bakhtin chama de atitude responsiva ativa. Para ele,
o ouvinte que recebe e compreende a significação (lingüística) de um discurso adota simultaneamente, para com esse discurso, uma atitude responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para executar, etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início, às vezes
já nas primeiras palavras emitidas pelo locutor (BAKHTIN, 1997a, p. 290).

A atitude responsiva ativa acontece devido às experiências anteriores adquiridas pelo sujeito. Sua ação de concordar, discordar, adaptar-se está associada às suas orientações ideológicas, ao grupo social que faz parte, está dialogicamente constituída através do outro. Portanto, como pontua GEGe (2009, p. 24), há nessa atitude responsiva ativa uma troca se signos alheios por signos próprios, ou seja, as respostas são formuladas a partir da relação com a alteridade, são contrapalavras às palavras do outro.
Nesse sentido, o sujeito se constitui na alteridade, obtendo sua completude nas relações que acarretam novas exigências de ser, novos conhecimentos e desafios. A relação contamina o outro por ser uma interação, seja ela construtiva ou turbulenta, é sempre dialógica. Portanto, o Outro constitui, identifica, bem como provoca o Eu a posicionar-se diferente de seu interlocutor, mostrando um lado inusitado do mundo e da vida. Isso justifica que toda relação é uma relação de poder, é o lugar onde o Eu e o Outro exercem a funcionalidade de construtores e não de réplica. Silva (2000, p. 81) associa essa relação de poder à definição de identidade; ambas se encontram em conexão uma vez que a identidade traduz o ensejo dos diferentes grupos sociais de garantir o acesso aos bens sociais, portanto, o poder de definir a identidade não está separado das relações mais amplas de poder; a diferenciação é o processo central pelo qual a identidade é produzida.
De acordo com Bakhtin (1997b, p. 113), a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e o outro, se apoiando em cada um nas extremidades. Coracini (2007, p. 29) também vê a enunciação (entendida aqui como palavra) com a funcionalidade de “ponte”, afirmando que todo uso de língua transforma o sujeito e a própria língua, tornando-se a palavra o veículo das constituições. Assim, a “língua é herdada: recebemos e damos” (CORACINI, 2007, p. 54).
Esse processo provoca nas constituições do sujeito a ausência de uma identidade plenamente unificada, completa; mediante deslocamentos, representações e significações emerge uma multiplicidade de identidades que o sujeito se identifica “temporariamente”. Hall (1999, p. 13) atribui a essa identidade não permanente a ideia de “celebração móvel”, ou seja, há uma continuidade de transformações devido às formas que somos representados, interpelados culturalmente e historicamente. O sujeito, dessa forma, assume identidades diferentes e/ou contraditórias conforme momentos.
Nessa alteridade e dialogia, a identidade pode ser construída indicando uma relação com a linguagem e suas representações. Entretanto, segundo Nascimento e Silva (2008, p. 21), não há isenção de ansiedade e contradições ao tratar a identidade como processo reflexivo estabelecido face ao outro e constituído na/pela linguagem; há o peso do conflito em meio às reivindicações de uma identidade. É possível perceber semelhança a essa questão quando Bakhtin (1997b, p. 147) diz que o sujeito que apreende a enunciação de outrem não se apresenta como um ser mudo, todavia, como um ser cheio de palavras interiores.
Assim, pela interação dialógica, o sujeito não se apresenta como uma réplica, passivamente constituído de um “monolinguísmo”, mas se apresenta com uma ética de responsabilidade, seu ato responde ao outro com caráter responsável, único, irrepetível. Logo, as contradições, conflitos, as diferenças constituem a identidade, constroem uma narrativa que não escapa a língua, impulsionam o Eu a posicionar-se diante do seu interlocutor, mediam a percepção dos sentidos/significados que estão em jogo na relação Eu/Outro.

Referências
AZEVEDO, Sandra M. Alteridade e dialogia: arma da paz? In: Grupo de Estudos dos gêneros do Discurso – GEGe. O espelho de Bakhtin. São Carlos: Pedro & João Editores, 2007.
BAKHTIN, M. (1997a). Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. (1997b) Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 8 ed. São Paulo: Hucitec, 1997.
GEGe, Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso. Palavras e contrapalavras: glossariando conceitos, categorias e noções de Bakhtin. São Carlos: Pedro & João Editores, 2009.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Louro. 3. Ed. Rio de Janeiro. DP&A, 1999.
MIOTELLO, Valdemir. O diferente sou eu para o outro: pensares rascunhados à sombra e luz de Bakhtin. In: Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso – GEGE. Armas de Bakhtin – linguagem e vida. São Carlos: Pedro L. João Editores, 2008.
NASCIMENTO e SILVA, D. A questão da identidade em perspectiva pragmática. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 8, n.1, Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.
SILVA, Tomaz T. da. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, T. T. da (org.) Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. 

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