segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ingrid da Silva Marinho, Luzia Thamires da Silva Souza

Imagem/mensagem: a sensibilidade do olhar na construção do texto-imagem.
Ingrid da Silva MARINHO (UFPA)
ingrydmarinho@hotmail.com
Luzia Thamires da Silva Souza (UFPA)
luzidjesus@yahoo.com.br
Universidade Federal do Pará (UFPA)
Orientadora: Profa. Dra. Rosa Maria de Souza Brasil


“A imagem do outro se completa com o excedente da minha visão”
MikhailBakhtin





A fotografia é inclassificável, disse Roland Barthes. A palavra, o texto, a linguagem são frutos da atividade humana e, por isso, não podem ser estáticas, fixas, classificáveis, defende Bakhtin.
Ser humano é significar, afirma Bakhtin, logo toda a ética e a estética estão fundamentadas, nas relações sociais pelas quais os valores humanos se manifestam. Dessa maneira, a palavra, a linguagem, a fotografia, o texto se entrelaçam formando um corpo maior à imagem e semelhança do homem e passam a apresentar uma outra linguagem, aquela que o próprio homem representa: imagem híbrida, heterogênea.
A partir das reflexões acerca de fotografia e texto, signo verbal e não verbal e suas relações, ressaltaremos a importância que cada uma dessas manifestações do “querer-dizer” como se “olha o outro” sob a ótica Bakhtiniana, contribui para o enriquecimento do nosso arquivo cultural enquanto sujeitos participantes de práticas sociais.
Apresentaremos construções de textos heterogêneos (texto/imagem) para fins de análise semiótica, simbólica e discursiva. Essas produções foram possíveis porque reconhecemos a necessidade de sair do campo de visão limitado de uma sala de aula. Abraçamos a proposta do Projeto Entreletras. Decidimos vivenciar experiências “fora-classe” capazes de nos ensinar a ler e a escrever o mundo a partir da atitude ética e estética no mundo. Partindo desse princípio Bakhtiniano, entre as nossas atividades temos “práticas de vivência” das quais retiramos as fotografias e textos que integram o objeto de estudo da presente pesquisa.
Notamos, na prática, que a vivência é o primeiro momento da atividade estética, uma vez que o sujeito se reconhece enquanto ser social, fundamentado na relação com os outros que o constituem como tal. É também por meio da vivência que é possível “olhar o outro de fora”, ou seja, experimentar o fenômeno da extraposição, como afirma Bakhtin:
“O primeiro momento da atividade estética é a vivência: eu tenho de viver (ver e conhecer) aquilo que está vivendo o outro, tenho de me colocar no seu lugar, como se coincidisse com ele (...). Devo assumir o horizonte vital dessa pessoa tal como ela o vive; dentro desse horizonte, contudo, há lacunas que só são visíveis do meu lugar.” (BAKHTIN, 1989, p.30).

Dessa maneira, percebemos que fotografar o mundo tal como ele se apresenta não é tarefa fácil, pois sempre corremos o risco de, simplesmente, transpor imagens sem nenhum diferencial, sem nenhum valor estético. Porém, verificamos no decorrer das várias “vivências” que o importante é educar o olhar, ou seja, quando levamos em consideração o processo de extraposição vinculado ao ato fotográfico, algo de diferente acontece. Segundo Barthes, “perceber o significante fotográfico exige um ato segundo de saber ou de reflexão.” (1984, p.15).
Assim, despertamos para a singularidade do olhar e notamos que o ato de fotografar é uma maneira de dar corpo ao olhar extraposto, ou seja, é uma forma de dar acabamento estético ao excedente de visão. De acordo com Bakhtin, quando assumimos o lugar do outro e retornamos ao nosso próprio horizonte, o nosso olhar começa a mudar. Torna-se um “outro” olhar:




“Pois a fotografia é o advento de mim mesmo como outro: uma dissociação astuciosa da consciência de identidade.”
(Barthes, p.25).

“Essa fotografia transforma a solidão em uma percepção imagética que nos transporta para novas ou antigas dimensões capturando realidades, sua humanidade, sua desumanidade, suas CONTRADIÇÕES.” (Ingrid Marinho, bolsista Entreletras)





                    Figura 02: mendigo na sacristia

Barthes diz que a fotografia nos fere. Ele afirma que algumas fotografias despertam em nós, verdadeiras “picadas”. A essa sensação ele chama de punctum:
“punctum é também picada, pequeno buraco, pequena mancha, pequeno corte (...) o punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere.”  (BARTHES, 1984,p.46).

 É necessário ressaltar que o autor diz que essa sensação sempre é percebida pelo espectador, nunca pelo fotógrafo. Pois, o punctum é sentido a partir do acabamento estético.
Em vista disso, o contemplador é movido por esse profundo sentimento que o arrebata para momentos efetivamente vividos, visto que a fotografia apresenta em seu conteúdo um fragmento da realidade, ou seja, um aspecto determinado, que é capaz de denunciar tensões sociais e políticas que, por vezes, são esquecidas. Dessa maneira, a fotografia se encarrega de mostrar aquilo que a sociedade deseja esconder:



“O documento visual testemunha a atuação do fotógrafo enquanto filtro social”  (KOSSOY,2001,p.114)  



“Esse momento me feriu. Um homem se impondo, de cabeça erguida, corpo ereto. Enquanto o outro, muito abaixo, parece implorar, rogar por atenção. A expressão corporal deste é o que mais me punge. Ela evidencia a diferença, o descaso, a injustiça social.”  (Gabriela Brito, bolsista Entreletra)


O fotógrafo Boris Kossoy afirma que a fotografia será sempre uma interpretação dotada de múltiplas significações: “A fotografia (...) não pode ser o registro puro e simples de uma imanência do objeto: como produto humano, ela cria, também com esses dados luminosos uma realidade que não existe fora dela, nem antes dela, mas precisamente nela.” (KOSSOY, 2001, p.114). Esse caráter pontual da fotografia reside exatamente na expressividade de cada sujeito. Das experiências de vida que o compõe enquanto ser social. A compreensão sígnica de cada fotografia depende dessa relação. Assim como, a sua realização depende da concretude para existir:
“Na fotografia, jamais posso negar que a coisa esteve ali. Há dupla posição conjunta: realidade e passado. E como essa coerção só parece existir por si mesma, deve-se considera-la, por redução a própria essência, a noema da fotografia (...). O nome da noema da fotografia será, portanto: isso foi.” (BARTHES, 1984, p.119)

Isso evidencia o fato real que caracteriza a fotografia, pois ela representa aquilo que realmente aconteceu. Só podemos fotografar tal momento porque o vivenciamos de fato, segundo Barthes:
“o que a fotografia reproduz ao infinito só aconteceu uma única vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais vai poder se repetir existencialmente. Nela o acontecimento jamais se ultrapassa rumo a outra coisa: ela sempre remete ao corpus de que preciso ao corpo que estou vendo; ela é o Particular absoluto, a Contigência soberana, fosca e como boba, o Tal ( tal foto e não a Foto), em suma, a tuché, a Oportunidade, o Encontro,o Real em sua expressão infatigável.” (1984,  p.72)

Logo, a fotografia representa a singularidade do momento vivido como diz Bakhtin, do evento irrepetível. Do caráter único de cada situação que marca o instante em que o olhar estético é capturado. Esse momento não volta mais. Somente a câmera o registra, e o seu resultado é garantido por meio da fotografia que assim como o evento torna-se singular, única e irrepetível.
Lembramos que assim como o ato fotográfico é único, o momento do enunciado também o é. A realização entre ato fotográfico, momento do enunciado e a construção de umtexto possui o mesmo referencial em comum, são todas atividades humanas que precisam apresentar um conjunto de signos coerentes, isto é, precisam gerar sentido nos seus interlocutores/contempladores.
Dessa forma, a relação texto-imagem é descrita como uma forma de complementariedade, ou seja, essas duas formas de linguagem se unem, caminham juntas em direção ao primeiro objetivo: comunicar a mensagem. Portanto, tanto texto, como imagem apresenta equivalente valor no sentido de contribuírem para o objeto estético, sempre, de acordo com a peculiaridade expressiva de cada linguagem, de forma que nenhuma anula ou se sobrepõe a outra.
Esse princípio se apoia na relação de Relais apresentada por Santaella em que:
“o texto e a imagem se encontram numa relação complementar. As palavras, assim como as imagens, são fragmentos de um sintagma mais geral e a unidade da mensagem se realiza em um nível mais avançado.” (p.55)

Cabe lembrar que cada signo (verbal e não verbal) possui suas peculiaridades e funções desempenhadasno processo de acabamento estético. Ambos, portanto, a sua maneira, somam significações para a construção de um texto mais avançado esteticamente. Miotello explica como a leitura de um texto híbrido ocorre:
“No signo verbal a compreensão antecede a sensibilização e a valoração emotiva, já no signo não verbal, conforme o seu tipo e a situação, a sensibilização e a valoração emotiva podem até anteceder uma compreensão global. Em geral são simultâneas. O signo não verbal, conforme o tipo e a situação é fortemente sinestésico: projeta emoções e sensações diretamente vinculadas à visão”  (MIOTELLO, et al, 2011,p.91)

Conseguimos internalizar esse processo por meio das práticas de vivências, experienciadas em diversos lugares da cidade de Belém. A partir do despertar do olhar extraposto, aguçamos inspirações e, assim, surgiram construções textuais que apresentam estrutura diferenciada. Todos os elementos sígnicos, semióticos e principalmente simbólicos concorrem para a representação da unidade textual que não é apenas verbal, nem somente não verbal é totalmente híbrida, heterogênea. Eis um exemplo:
O outro e eu                                                                                                                                                
Eu e outro no mesmo espaço

“O sujeito é tomado como ser hibridono qual se                digladiam as vozes de outros sujeitos. O movimento de interconexão, de formação e transformação de partes constitutivas equipara o homem ao texto. O texto apresenta a construção híbrida multidiscursiva e materializada do homem.” (BRASIL, et al, 2011, p.37)                                                                                                       
Urbano que não tem barreiras
e não esconde as distâncias
que separam o outro de mim.
Vejo no outro a tristeza
e a ausência – do próprio nada,
que não lhe é permitido, não lhe é dado –
ausência de vida, ausência do outro,
ausência de mim e de ti.
O outro vive por não ter outra alternativa
e até por não ter chance de melhor viver.
Será que ele vive por viver,
ou será que ele se mata pra viver?
Ou será que ele vive, e não pode viver?
Mas vive por não poder morrer.
                          Gabriela Brito

                                                                                                                                                                                  Figura 04: a vela

Notamos que nessa fotografia a sensibilidade artística se revela acompanhada da arte e da vida e não como retrato fiel ou uma exposição da realidade enquanto momento estáticosem qualquer atribuição estética. Assim o todo se constitui, o texto complementa a imagem e vice-versa. Conseguimos contemplar o seu acabamento enquanto objeto estético. Entretanto, o processo pelo qual esse texto foi construído permanece inacabado visto que o caráter heterogêneo desse tipo de texto garante a diversidade de leituras que ele proporciona. O texto/imagem desperta sentimentos, sensações, argumentos, enfim aviva e constrói discursos. Isso faz dele um texto multisemiótico que ativa um leque de interpretações baseadas na experiência de vida do leitor, como afirma Kossoy:
“No esforço de interpretação das imagens fixas, acompanhadas ou não de textos, a leitura das mesmas se abre em leque para diferentes interpretações a partir daquilo que o receptor projeta de si, em função do seu repertório cultural, de sua situação socioeconômica, de seus preconceitos, de sua ideologia, razão por que as imagens sempre permitirão uma leitura plural.” (KOSSOY, 2001, p.115)

É dessa maneira que o olhar estético é explorado na fotografia em conjunto com o texto escrito. O modo como o olhar atinge o outro determina todo o processo de construção do texto/imagem. Pois, o que altera a interpretação da unidade textual é exatamente a distinção do olhar. A visão diferenciada. A extraposição. Isso determina o valor estético atribuído ao todo textual. É sempre importante considerar a relação entre os signos verbal e não verbal e, principalmente, valorizar cada signo de acordo com a sua função e peculiaridade presente no teor significativo do texto. 
 Para isso, é preciso ter sensibilidade no olhar, é necessário ver raridade naquilo que é comum, para sermos capazes de fotografar não apenas cenas, mas capturar experiências. Não enxergar nas fotos apenas imagens, mas ser capaz de ler verdadeiras mensagens. E reconhecer que os signos verbais constroem textos verbais, signos não verbais constroem textos imagéticos, porém os texto/imagem produzem uma leitura multisemiótica, multidiscursiva e, principalmente multisimbólica, sendo assim, uma leitura verdadeiramente plural.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
BRASIL, Rosa. Metatexto fílmico: a síntese simbólica. In BRASIL, Rosa; FILHO, José Sena; TAVARES, Mara (org.). Linguagem e imagem: entrelaçamentos indisciplinares (orgs). Belém (PA): L&A, 2011.
KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2 ed. ver., São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
MACHADO, Irene. Os gêneros e o corpo do acabamento estético. In BRAIT, Beth. Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. 2 ed. rev., Campinas (SP): Editora da UNICAMP, 2005.
MIOTELLO, Valdemir; TURATI, A. Carlos. Para uma leitura do texto materialmente heterogêneo.In BRASIL, Rosa; FILHO, José Sena; TAVARES, Mara (org.). Linguagem e imagem: entrelaçamentos indisciplinares (orgs). Belém (PA): L&A, 2011.
SANTAELLA, Lucia e NOTH, Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 2005.

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